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Paradoxos de um mundo moderno
Um ditador chamado TPC

É um dos paradoxos mais intocáveis no mundo da Educação, o dos TPC – vulgo trabalhos para casa. Os pais olham com satisfação ver os filhos a fazerem-nos convencidos que isso fará deles adultos mais aptos e responsáveis. Esquecem-se do “tempo para brincar, do estímulo para inovar, recriar, experimentar e até transgredir. Será que nas suas empresas todos levam trabalhos para casa? Nunca pensaram na resposta.

Imagino que o Einstein não fazia os TPC e brincava muito, experimentava muito e pensava, pensava e pensava. Se o professor de Einstein o entupisse com TPC’s provavelmente tudo teria deixado de ser RELATIVO ou talvez tudo tivesse passado a ser RELATIVO, menos aquilo que ele queria que fosse. Se calhar, relativo aos outros Einstein teria sido apenas mais um igual.

Ainda nem se tinha dado o 25 de Abril já estas siglas faziam parte do nosso dia-a-dia, qual movimento político que anteciparia o futuro.

No liceu, entenda-se actual 3º ciclo, até canções inventávamos sobre as siglas. TPC era o impedimento de termos um fim-de-semana mais feliz num Dolce fare niente. TPC era o terror do fim do dia. TPC eram as três letras mais faladas no telefone, no autocarro (no meu tempo). Como normalmente se mudam os tempos e as vontades, a verdade é que o TPC continua irredutível de geração em geração numa presença limitadora de felicidade e de tranquilidade de fim de tarde.

“Tens TPC?” perguntem a qualquer jovem entre os 7 e os 17 quantas vezes já fez esta pergunta hoje ou ontem ou anteontem. Ter TPC quer dizer: não ir ao cinema, não ir mais cedo para o sofá, não ir à natação, deitar mais tarde, estar de mau humor, inter-agir menos com a família, comer à pressa, não falar, ignorar os pares… um número infindável de situações qual delas a menos agradável.

Há muito tempo, no meu tempo de liceu, houve alguém com muito humor na minha turma que desmistificou estas três letras e, passo a publicidade, dizia: “qual é o Tomate Pelado Compal de hoje?”. O TPC passou a ter graça não na sua essência mas na sua terminologia. TPC era o tomate do dia. Nunca na dose certa do conteúdo mas na dose certa de humor. Até nos ríamos durante o TPC a pensar que estávamos no momento da Compal…e assim com  humor de certeza que decorreu um ano lectivo, marcante até hoje.

Com certeza foi por isso que o TPC é agora aqui tema de conversa. Acreditam que nunca contei aos meus filhos “esta do tomate”? E aqui faço uma reflexão…porque achava ou acho que eles devem levar os TPC a sério? Porque nem eu os levo a sério (os TPC)? Ou porque entrei no esquema do “não concordo mas tem que ser e os miúdos têm é que fazer o que os professores dizem sem que a mãe opine”?

Já estou na reciclagem, acho mesmo que no mestrado, do TPC. A minha filha já deixou os TPC para trás e o meu filho começou com os TPC.

Antes do ano lectivo começar andei a apostar com as minhas amigas qual seriam os professores dos nossos filhos suficientemente bons que nunca marcariam TPC´s?

Perdemos todas a aposta, apesar da minha pena ser a mais leve: o meu filho só tem TPC no fim-de-semana.

A verdade é que vou fazendo piada e graça de toda esta situação mas é um assunto sério…quanto mais percebia e me dedicava ao acto de “educar” menos sentido faziam os trabalhos para casa.

E fui crescendo como pessoa, com uma atitude de, em primeira instância, nem pensar e achar que era bom a minha filha ter trabalhos de casa para agora escolher o professor do meu filho que não marca trabalhos para casa.

Não é preciso ser profissional de educação ou pedagogo para nos debruçarmos sobre a essência do TPC. Os trabalhos de casa são os castigos do final do dia. Pense no seu filho que, neste momento está no 2º ano (2ª classe), por exemplo. Esteve na escola três ou quatro horas sentado a ouvir o professor. Escreveu cinco vezes a data, o nome, o abecedário em maiúsculas e em minúsculas, fez as contas de somar, de subtrair, ouviu falar sobre as montanhas e sobre ecologia. Correu meia hora no recreio, voltou para a sala de aula e escreveu mais duas vezes o nome (em letra manuscrita, mesmo em cima das linhas). Em seguida chegou a professora de Música e o professor de Inglês. Saiu da escola 8 horas depois de lá ter entrado com a vontade louca de “estar”: estar com os irmãos, com a avó, com o avô, esperar à janela pelo pai, ver o Canal Panda (só um bocadinho) e …fazer os benditos TPC, porquê? Se o seu filho não fizer os TPC vai esquecer-se da matéria da escola? Vai consolidar conhecimentos nas horas seguintes? Vai fazer mais treino motor? Pense é que deve descansar, deve brincar deve estar feliz pois com o equilíbrio destas três premissas é que amanhã toda a informação dada pelo professor será processada de forma equilibrada. Nenhuma criança cansada e triste será um bom aluno.

De um psicólogo e psicanalista que muito prezo, Eduardo Sá e que me tem feito pensar sobre a dinâmica de educar, cito alguns excertos de um dos seus livros que vos levará também a repensar nos TPC “…Os trabalhos de casa talvez façam parte de uma categoria de castigos psicológicos com que os adultos mimam as crianças para que elas nunca se esqueçam que crescer é uma coisa sisuda e dolorosa. E, sendo assim, é como se lhes dissessem: já que trabalhaste das nove às quatro, e te portaste bem…para castigo tens estas folhas de exercícios para fazeres” E, mais à frente continua: “…Será que se não repetirem, até à exaustão, tudo aquilo que aprenderam, pensam melhor acerca disso?(…) As crianças saudáveis tratam mal os deveres. Ainda bem. Algumas mimam-nos com desabafos tipo: Porcaria! Outras, guardam para si o direito à insubordinação, numa versão light, demorando uma eternidade até os concluírem…com imensos erros. Os deveres são supérfluos para as crianças. É de bom senso que, ao chegarem a casa, vindos da escola, a meio da tarde os pais obriguem as crianças…a brincar.”

Imagino que o Einstein não fazia os TPC (ou tinha, quiçá um óptimo professor que não lhos marcava) e brincava muito, experimentava muito e pensava, pensava e pensava. Se o professor de Einstein o entupisse com TPC’s provavelmente tudo teria deixado de ser RELATIVO ou talvez tudo tivesse passado a ser RELATIVO, menos aquilo que ele queria que fosse. Se calhar, relativo aos outros Einstein teria sido apenas mais um igual.

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Sobre o autor:  Fernanda Ló é educadora de infância de formação com grande interesse pela área da psicologia. O facto de ter um filho "diferente" fez com que se debruçasse mais especificamente sobre a problemática da inclusão e integração. Mestranda em psicologia do desenvolvimento sensorial e motor, fez paralelamente uma pós-graduação em educação especial. Neste momento está numa escola da rede pública a acompanhar crianças com perturbações do espectro do autismo.



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