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A Importância do BRINCAR

crianca-a-brincarCada vez mais os pais delegam nas instituições o “educar os filhos” e acham que brincar é supérfluo. Será talvez o preço a pagar pela elevada exigência das suas vidas profissionais. Não significa que não queiram o melhor para as suas crianças e sobrecarregam-nas com outras actividades. É a Natação, a Equitação, a Música, uma infindável lista que, muitas vezes, apela mais ao estatutário do que ao pedagógico. Mas é um erro cujas consequências, mais tarde ou mais cedo, se irão revelar.

Espero que a banalidade do título não vos faça passar à frente estas folhas.

Todos sabemos (será que sabemos mesmo?) que brincar é a actividade mais importante para um desenvolvimento global harmonioso da criança. Temos acesso constante e interesse renovado pelas pedagogias, psicologias além dos media nos bombardearem com teorias e conversas sobre o brincar. Pais atentos e socialmente correctos passamos então a dizer “deixa-o mas é brincar”. Dizemos mas não deixamos de os privar de brincar e é só neste ponto que vou tentar que este artigo não seja banal.

Somos pais atentos mas quase sempre ausentes da vida dos nossos filhos sejam eles crianças ou mesmo adolescentes… explicando esta afirmação tão crua: a escola/o colégio encarrega-se de lhes proporcionar tempos para brincar (pensamos) pois o nosso dia começa às 7 e termina às 7 (para os que têm sorte). Nessas 12 horas os nossos filhos estão entregues aos outros que nós desejamos que façam um excelente trabalho. Depois chegamos e levamo-los à Natação, ao Inglês, à explicação de Matemática, ao “Hip-Hop”, ao Piano, …em seguida chegam a casa e alguns, (os sortudos) vão para o quarto brincar, se ainda não for hora do banho, e os outros vão fazer os “TPC”. Jantar e dormir serão as próximas actividades.

Agora encaixem aqui o brincar (apesar de sabermos como é importante brincar). Ao fim de semana, respondem uns, na escola, respondem outros. Não, na escola não brincam e no Jardim de Infância também brincam pouco…admirados? Não…é um facto. Outro dia perguntei ao meu filho se gostava da Carla (a educadora que substitui a educadora que está doente). Ele respondeu-me que sim porque “ela brinca comigo”. Que feliz fiquei. O meu filho vai crescer de uma forma harmoniosa porque brinca e tem o privilégio da educadora brincar com ele. Esta sua afirmação tem-me perseguido e andei a aborrecer a minha sobrinha que tem a mesma idade e perguntei-lhe se a Eduarda (educadora) brincava com ela. A minha sobrinha sorriu, olhou para mim como se eu fosse um allien e disse “oh tia, claro que não, ela não pode está a escrever e a dizer coisas”. Mesmo assim insisti: “e quando estás na área da casinha, ou nas construções?” “Não tia, a Eduarda não tem tempo ela também é crescida”. Mesmo assim não fiquei convencida: “e gostavas que a Eduarda brincasse contigo?” “Claro tia, eu também gosto de brincar com os crescidos!”. Afinal é importante brincar mas quem brinca com quem? O adulto com a criança ou as crianças entre si? Eduardo Sá respondia-me “As duas são muito importantes”.

Não consigo deixar de partilhar algo que foi dito por Mário Cordeiro numa conferência no passado mês de Julho: “o facto de chegarmos a casa e não nos disponibilizarmos para os nossos filhos faz com que eles entrem numa espiral negativa de sentimentos, impaciência e birras. Uma criança que anseia o dia todo por ver os pais e quando estes chegam não estão disponíveis para os filhos faz com que as crianças fatalmente chamem a atenção da pior forma: dez minutos da atenção dos pais são suficientes para os saciar (…)”.

Retiramos daqui que os nossos filhos gostam e devem brincar connosco, sozinhos e em grupo. Mas, a importância que socialmente damos às actividades extra-curriculares (e muitas vezes às curriculares), põe de lado o brincar. Os colégios só são bons se as crianças tiverem muito Inglês, muita Natação, muita Informática…não pretendo ser extremista mas serão necessárias estas actividades todas? Se, por outro lado o colégio não oferecer diversidade de actividades é classificado com o “não presta” apesar de eventualmente ter um projecto educativo fantástico. As mães e os pais actuais gostam de sujeitar os filhos ao “stress” a que eles estão sujeitos…não de propósito, é claro mas porque os amigos também o fazem e os filhos dos amigos devem ser iguais aos nossos filhos. Em Lisboa, por exemplo, criança que ande no 1º ciclo e se preze deve sair do colégio e frequentar a equitação. E não estou a falar de meios económicos altos, o target é a criança do colégio particular médio. Apesar de também muitas que frequentam a escola oficial irem à equitação.

A maioria dos pensadores e educadores que trabalham com este tema ressalta a importância de brincar no processo de aprendizagem e socialização. Infelizmente observa-se que a brincadeira não faz parte do projecto pedagógico da escola e da acção do professor.

Abusando dos ensinamentos de Eduardo Sá, acrescento aqui um pedido deste psicólogo, mais ou menos assim: “…no horário do vosso filho que está preso no frigorífico lá de casa, onde diz Inglês, ou Música, ou Natação, risquem e coloquem a palavra BRINCAR…vão ter com certeza filhos mais responsáveis e acima de tudo, mais felizes…”

Em jeito de conclusão poderei dizer que afinal brincar é coisa séria.

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