Postado em 11.17.09 em Outros por Fernanda Ló

Todos diferentes, todos iguais…uma treta!

Todos diferentes, todos iguais…uma treta!

A importância da imagem, principalmente a imagem do deficiente (porque há muito deficiente que não tem “esse” comprometimento na imagem) reflecte a maturidade humana e cultural de uma comunidade. Neste domínio, infelizmente os portugueses ainda vivem na idade das trevas.

Estava na praia com o meu marido e chegou um casal com uma criança, uma menina que aparentava cerca de dois anos. Instalaram-se, criaram um espaço para a menina e sentaram-se ao sol. A menina tinha Síndrome de Down. Continuei a olhar o horizonte e a perder-me no azul infinito do mar quando, de repente, o meu marido me questiona: “aquela menina tem síndrome de Down, não tem?”. Depois desta questão decidi partilhar aqui a forma como lidamos com a diferença. O meu marido não tinha perguntado nada se a menina fosse “simplesmente igual aos outros”. As pessoas em volta não tinham olhado mais do que um par de vezes se a menina fosse igual aos outros. Porque nos fascina a diferença, neste caso específico no sentido da deficiência e se cultiva o “coitadinho”? Muito aprendemos, muito ensinamos aos nossos educandos e muito defendemos no sentido de “todos diferentes, todos iguais”: mentira!! Os diferentes são diferentes na sua deficiência e quer queiramos, quer não, o Mundo é dos iguais.

A saída do novo decreto-lei 3/08 que substituiu o antigo decreto-lei 319 faz-nos pensar que finalmente os governantes se lembraram das crianças e jovens com necessidades educativas especiais em Portugal (os diferentes). Se o Decreto-lei 319 tinha lacunas e não contemplava áreas importantes, a nova legislação já as contempla mas tem lacunas noutras áreas. Resumindo: os dois juntos fariam a diferença. A diferença das diferenças.

Sabemos, é senso comum, que as crianças são cruéis no seu modo de lidar com os outros mas também sabemos que nós, pais e educadores, pouco ou nada fazemos para minimizar essa crueldade inerente à condição humana: Quando os miúdos são pequenos são os pais os primeiros a comentar (baixinho, para que ninguém ouça) que “o Manel, coitadinho tem ali um atraso” e comummente outros acrescentam “ será que o Manel, coitadinho, não vai prejudicar o rendimento escolar do nosso Joãozinho?”.

Assim, como se alteram mentalidades? Como é que as nossas crianças poderão deixar de ser cruéis se a diferença ainda não é encarada como um ensinamento e uma mais valia para os que convivem com ela?

Quantos de nós sabemos que, por exemplo, o ano de 2007 foi o Ano Europeu da Igualdade? Quantos eventos em Portugal se fizeram ao longo de 365 dias para comemorar o Ano Europeu da Igualdade?

Ser coxo, ser cego, ser surdo é socialmente incorrecto neste País à beira da falência mas com uma medalha de ouro em preconceito… a diferença está em nós ou no outro?

A importância da imagem foi desprovida de pudor quando o célebre fotógrafo Toscani (o fotógrafo da Benetton) mostrou a sua campanha ao Mundo. Tanto nos chocou! E se Toscani tivesse pegado não na diferença étnico/racial mas sim na diferença que aqui comento? Talvez fosse uma ajuda na mudança, pois o que chocou passou a ser moda. A minha filha tem uma t-shirt da dita marca com um pretinho e uma branquinha a beijarem-se. Toscani podia ter pensado na menina com Síndrome de Down, abraçada ao menino com Paralisia Cerebral. Seria vendável? Gostava que passasse a “ser moda” para que todos contribuíssem para a igualdade de oportunidades e passássemos a fazer mais feliz o nosso semelhante, nem que fosse só pela atitude.

A importância da imagem, principalmente a imagem do deficiente (porque há muito deficiente que não tem “esse” comprometimento na imagem) reflecte a maturidade humana e cultural de uma comunidade. Há implicitamente uma relatividade cultural que está na base de um julgamento que distingue entre “deficientes” e “não deficientes”. Essa relatividade obscura, ténue, subtil e confusa procura, de alguma forma, “afastar” ou “excluir” os indesejáveis, cuja presença ofende, perturba e ameaça a ordem social.

A possibilidade de participação do meio social numa visão integradora e inclusiva demonstra que se a sociedade se libertar dos seus preconceitos convivendo com a diversidade só terá ganhos pois aprendemos muito com a “desigualdade”.

Se caminharmos para Ocidente percebemos que a imagem do deficiente é desprovida de “coitadinho”. Não é preciso ser sociólogo ou ir à América para saber se isto é verdade ou mentira. Peguemos no exemplo do que se tem feito com o Síndrome de Down. Era eu ainda uma miúda já via uma série americana cujo protagonista era um jovem com mongolismo. Há bem pouco tempo, numa novela brasileira foi focado (com certeza na esperança da mudança de mentalidades) o desespero de uma mãe face à aceitação de uma criança diferente na escola. Aqui em Portugal lá apareceu numa série diária para jovens a problemática de um jovem que ficou “diferente”: deslocava-se numa cadeira de rodas devido a um acidente. Mas, engraçado: todos os personagens desta série são conhecidos pelo nome ou pelos seus olhos azuis, ou pelos seus cabelos loiros…a referência deste actor era: “o da cadeira de rodas”. Claro que ele estava numa cadeira de rodas mas tinha olhos verdes e era amigo da Soraia, estão-me a entender? A cadeira de rodas, a força da imagem “tão” diferente é que o diferenciava.

Se chegarmos a Itália percebemos que ter quatro ou cinco pernas, ter Paralisia Cerebral, babar-se em público ou ser cego é NORMAL. A aceitação das diferenças fez-se há umas décadas. Eles conseguiram e orgulham-se de terem uma inclusão nas escolas de quase 100%. Segundo Forest & Pearpoint (1997) “Inclusão não quer dizer absolutamente que somos todos iguais. Inclusão significa aceitar a nossa diversidade e as nossas diferenças com respeito. Quanto maior for a diversidade, mais rica a nossa capacidade de criar novas formas de ver o Mundo.”

Vá lá…dizem que a aceitação das diferenças começa no seio familiar pela maneira como nos transmitem valores: é só mais um!!!

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Sobre o autor:  Fernanda Ló é educadora de infância de formação com grande interesse pela área da psicologia. O facto de ter um filho "diferente" fez com que se debruçasse mais especificamente sobre a problemática da inclusão e integração. Mestranda em psicologia do desenvolvimento sensorial e motor, fez paralelamente uma pós-graduação em educação especial. Neste momento está numa escola da rede pública a acompanhar crianças com perturbações do espectro do autismo.



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Comentários ( 2 )

Antes de mais, realmente não somos iguais. Os homens são diferentes das mulheres,… acabando em “somos seres únicos”. Mediante estas diferentes, há quem divida para controlar (eterno sentimento de insegurança enfim…), ou há quem veja isso como uma riqueza ou complementaridade. Eu tento perspectivar-me sempre na segunda postura. Porquê? Porque aquilo que é igual a mim “é sempre mais do mesmo”, mas aquilo que é diferente de mim permite conhecer-me ainda mais. E quanto mais me conheço mais cresço. E realmente há um aspecto que tem vindo a ser desvalorizado pela sociedade, talvez o maior ensinamento dos indivíduos com síndrome de down (a tal complementaridade), é a vontade de viverem. De momento não me lembro do nome, mas é uma espécie de resiliência diferente que eles têm perante as adversidades. Uma resiliência grande. Pena não me lembrar do nome, mas realmente já li artigos sobre o assunto e fiquei fascinado. E agora, supostamente nós que ficamos ansiosos e depressivos é que somos os chamados “normais”. Contraditório?

João BritoNo Gravatar deixou este comentário em Nov 19 09 ás 14:26

PS: a Benetton é uma marca hipócrita. Enquanto faz publicidade ao todos diferentes todos iguais, compra lâ que é arrancada de forma crua a ovelhas vivas que depois são transportadas da Austrália para a China (ainda vivas e chegando à China são finalmente abatidas para alimentação). Enfim, a imagem do “somos consciêntes” vende.

João BritoNo Gravatar deixou este comentário em Nov 19 09 ás 14:30

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