Postado em 03.10.10 em Curiosidades, Notícias por Jorge Alves

O homem (quase) sem serotonina nem dopamina (e outras monoaminas)

Tomei conhecimento através do blog Neuroskeptic que foi publicado recentemente um artigo de estudo de caso sobre um homem com uma desordem genética rara (i.e. deficiência de sepiapterina reductasa) que causa uma deficiência grave dos neurotransmissores serotonina, dopamina, melatonina e noradrenalina (ou seja, das monoaminas). Importa contudo dizer que esta deficiência não é total.

O paciente apresentava apetite aumentado, um comprometimento cognitivo moderado e perturbações de sono como é possível ler no seguinte excerto:

“The patient reported sleep problems since childhood. He would sleep 1 or 2 times every day since childhood and was awake during more than 2 hours most nights since adolescence. At the time of the first interview, the night sleep was irregular with a sleep onset at 22:00 and offset between 02:00 and 03:00. He often needed 1 or 2 spontaneous, long (2- to 5-h) naps during the daytime.”

Convém recordar que tanto o apetite aumentado e irregularidades do sono fazem parte dos critérios de diagnóstico actuais de depressão.

Para além do mais, o paciente apresentava uma fraca coordenação motora, semelhante à observada na doença de Parkinson e ligada à deficiência de dopamina.

Após ter realizado um teste genético foi-lhe diagnosticado o síndrome já referido e foi tratado com um precursor da serotonina (sendo que já tinha sido tratado anteriormente para os sintomas ligados à falta de dopamina).

Ou seja, os dados que referi até agora são consistente com a visão de que a serotonina (e também as outras monoaminas) estão ligadas a sintomas observados na depressão. Contudo, o paciente não relatou estar deprimido, o que vai contra a noção comum de que a depressão é “causada” por baixos níveis de serotonina.

Desta forma, o papel da serotonina na depressão, mesmo sendo investigado há décadas, ainda está longe de ser totalmente compreendido. [Parece que as teorias genéricas da origem da depressão devido ao défice de serotonina (ou outra substância) continuam sem encontrar uma base sólida de evidências.] O que parece certo é que não deve existir tal coisa como a “substância da alegria”. Mais ainda, provavelmente, outros neurotransmissores desempenharão um papel importante na sintomatologia apresentada (pensemos por exemplo na melatonina que poderia estar associada aos problemas de sono neste caso).

Link para o artigo: “Sleep and Rhythm Consequences of a Genetically Induced Loss of Serotonin“.

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Sobre o autor:  Jorge Alves é Doutorado em Psicologia. Neuropsicólogo Clínico. Investiga na área das Neurociências. Criador e autor principal do Portal RedePsicologia.com.



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