Postado em 11.29.10 em Saúde e Doença por Míriam Zaidan

Fatores psicossociais relacionados ao trabalho

FATORES PSICOSSOCIAIS RELACIONADOS AO TRABALHO

PSICOPATOLOGIA E PSICODINÂMICA NO TRABALHO

Trabalho - Homem de negóciosO trabalho pode ser considerado como fator de saúde na medida que proporciona às pessoas um desenvolvimento de seu potencial criativo, inovador, aprendizagem de novos conhecimentos e desenvolvimento de habilidades intelectuais e sociais  para um melhor relacionamento entre as pessoas.

Infelizmente, para alguns o trabalho pode se transformar num grande vilão, ameaçando a saúde física, emocional e social do indivíduo levando ao surgimento das denominadas doenças profissionais e doenças do trabalho.

O termo “psicopatologia do trabalho” refere-se ao desencadeamento de doenças relacionadas aos distúrbios psíquicos.

Nos estudos clínicos voltados para analisar as determinantes laborais dos distúrbios psíquicos, deve ser conhecida a situação de trabalho, incluindo as condições de trabalho e a organização do mesmo, principalmente,  os tipos de gestão e a qualidade das relações humanas no trabalho.

CONDIÇÕES DE TRABALHO

As condições físicas, químicas e biológicas vinculadas à execução do trabalho interferem muito nos processos mentais, podem ocorrer pela via neuropsíquica, pela psicossocial e, com freqüência, conjuntamente pelas duas vias.

Temos como exemplo, os agravos mentais causados pelo mercúrio, onde ocorre a intoxicação ao nível da estrutura do sistema nervoso e a percepção da perda de capacidades (memória, autocontrole emocional, entre outras), através da via psicológica, ocasionando sofrimento mental com surgimento de tristeza, manifestações depressivas e autodepreciação, levando o trabalhador a quadros psiquiátricos devido a intoxicação.

ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Os estudos relacionados à saúde mental do trabalho (SMT) encontram na organização do trabalho a esfera mais determinante dos agravos psíquicos relacionados às atividades laborais.

Vários modelos tem sido apresentados por distintas abordagens, na engenharia de produção, na sociologia do trabalho, na administração, na psicologia do trabalho e na ergonomia. Todas oferecem contribuições relevantes em relação às dinâmicas de saúde mental no trabalho.

Entendermos que as características das tarefas e o tempo exigido para o cumprimento das mesmas permite compreender  o início de um agravamento mental. Essas mesmas tensões poderão vir acompanhadas de outros aspectos organizacionais. Por exemplo, quanto mais rígido o controle exercido maior será a ansiedade gerada, comprometendo não somente a saúde como também os riscos de acidentes.

A estruturação temporal do trabalho também influencia neste dinamismo e diz respeito aos seguintes aspectos:

Paralelamente à estruturação temporal do trabalho assumem agravos à saúde do trabalhador: aspectos relacionados à repetitividade/variabilidade das tarefas, qualidade das pausas, das folgas e dos intervalos interjornadas, tornando-se nocivos aos riscos mentais de indivíduos ou de equipes de trabalho.

Podemos afirmar que quanto menor a paerticipação do trabalhador na formulação da organização de sua própria atividade e no controle sobre a mesma, maiores as probabilidades de que esta atividade comprometa a saúde mental do trabalhador.

A idéia de “distúrbio mental” é geralmente associada à de uma perda de capacidade laborativa, nem sempre ocorre assim, todavia, a permanência no local de trabalho frequentemente imprime peculiaridades às formas pelas quais o distúrbio pode se manifestar. Modificações de humor ou de conduta podem ser observadas e devem ser interpretadas pelo superior hierárquico.

A primeira ação normalmente é encaminhar a pessoa para uma avaliação médica, mas também ocorre das alterações comportamentais serem interpretadas como indisciplina, irresponsabilidade ou despreparo emocional , ocasionando demissão “por justa causa” sem oportunidade para que se investigue e estabeleça um diagnóstico médico.

Verificamos que a invisibilidade do plano subjetivo faz com que o trabalhador adoeça fisicamente ou expresse de outra maneira seus sofrimentos como nos seguintes contextos:

A influência das tensões do trabalho para o círculo familiar é verificada, gerando muitos conflitos e desuniões.

Para se defender o trabalhador acionará mecanismos psicológicos de defesa, como a negação, principal defesa adotada, tanto em nível individual quanto coletivo, como se nada estivesse acontecendo e mais grave, como se um grande e secreto poder unisse os membros do coletivo, tornando-os uma espécie de comunidade invulnerável ao perigo.

Consequentemente deixam de usar os EPIs (Equipamentos de Protecção Individual) como se não houvesse razão para tal, utilizar tais equipamentos seria como desmentir a “verdade”, decretada de que para os integrantes desta comunidade não existe riscos à vida..

Essa questão é bem apresentada por Dejours (1987), que considera o sistema defensivo coletivamente estruturado configura uma verdadeira “ideologia defensiva profissional” e afirma: “ A ideologia defensiva profissional, este ponto deve ser sublinhado, não possui nenhuma eficácia concreta na luta contra o próprio risco. Ela visa tão-somente a atenuação da percepção do risco e o prosseguimento do trabalho. Ineficaz em relação ao risco, ela no entanto é muito eficaz mentalmente, pois, mascarando o medo, diminui o sofrimento dos trabalhadores”.

O estudo relacionado à psicodinâmica do trabalho utiliza o referencial psicanalítico (Freud), ao mesmo tempo absorve contribuições de várias disciplinas numa perspectiva psicossocial.

A ABORDAGEM PSICOSSOCIAL

Na abordagem psicossocial ocorre o estudo da subjetividade, as relações interpessoal e a constituição de coletivos nos locais de trabalho, em especial, as estratégias coletivas para enfrentamento da ansiedade, medo, tédio, repugnância nas situações de trabalho.

O principal autor do desenvolvimento desta corrente é o Psiquiatra francês, Christophe Dejours, através da publicação em 1980 do seu livro intitulado: A Loucura do Trabalho.

Para o estudo do desgaste mental é indispensável considerar as trajetórias de vida e trabalho dos indivíduos.

Fatores como acumulação do cansaço, agravos determinados pelas condições de trabalho influenciaram o corpo, a forma que o próprio processo de envelhecimento sofre impactos decorrentes dos desgastes vinculados ao trabalho, as transformações da auto-imagem e do projeto de vida , conduzem a mudanças em nível da subjetividade e podem ocasionar profundas mudanças na personalidade desses trabalhadores.

Portanto, percebemos como o histórico pessoal de vida e trabalho é imprescindível para elucidação na prática clínica dos distúrbios psíquicos.

FATORES DE ESTRESSE RELACIONADOS AO TRABALHO

Os fatores de estresse são identificados em situações de trabalho e estão divididos em fatores associados ao ambiente, à organização e ao conteúdo do trabalho e aos fatores psicossociais.

AMBIENTE DE TRABALHO

Inclui a presença de riscos físicos (calor/frio), químicos (solventes e alguns metais); iluminação inadequada; fumo; falta de espaço e poluição do ar, ocasionando danos ao psiquismo humano.

Devem ser verificados os seguintes aspectos relacionados à organização do trabalho como vimos anteriormente:

CONTEÚDO DO TRABALHO

FATORES PSICOSSOCIAIS

Todos estes fatores aparecem associados, integrados e interdependentes, no entanto, as reações a estes fatores de estresses dependem da personalidade, experiência individual e expectativas profissionais.

Como reações de estresse podem surgir a morbidade psicossomática e psiquiátrica, como destaca Levi (1988:13); “ a saúde e o bem estar dependem, em grande medida, das características do ambiente sócio-econômico e cultural em que se desenvolve o processo, incluindo as influências do meio, urbanas ou rurais; clima; condições geográficas; tecnologia utilizada; os papéis masculino e feminino nas relações do trabalho e fora dele, a idade de início da vida profissional”.

in ‘PSICOLOGIA APLICADA EM SEGURANÇA DO TRABALHO’, Editora LTr, 2ª Edição – 2010, São Paulo, Brasil

REFERÊNCIAS:

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Sobre o autor:  Míriam Zaidan é psicoterapeuta em abordagem humanista com especialização em Medicina Comportamental pela Universidade Federal de São Paulo. Autora do livro "Psicologia Aplicada em Segurança do Trabalho" (Destaque nos Aspectos Comportamentais e Trabalho em Equipe da NR-10). Pioneira no Brasil em treinamentos voltados à Segurança nas Instalações e Serviços em Eletricidade.



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